O que foi a Revolução Verde e por que você precisa saber sobre ela?

Para entendermos os motivos de termos chegado ao posto de maior consumidor de agrotóxicos do mundo, é necessário que você, professor, entenda que o consumo de agrotóxicos no Brasil se trata de um projeto de mercado e não de uma necessidade para a produção. Para isso, precisamos saber um pouco mais do que foi a Revolução Verde e como ela afetou o agronegócio brasileiro.

A Revolução Verde, iniciada em 1950 nos Estados Unidos e na Europa, é um período em que a agricultura passa para uma configuração capitalista de produção em larga escala por meio da incursão de um vasto pacote tecnológico associado às técnicas de produção. Posteriormente, seus métodos foram importados para a América Latina, em especial o Brasil. Segundo Rigotto (2011), a posição alcançada pelo Brasil como maior consumidor mundial de agrotóxicos está inserida em um contexto de reestruturação produtiva no plano mundial e em especial na América Latina, cabendo a países deste continente o papel de produtores de commodities para o mercado internacional.

A mudança, apesar de aumentar a produtividade dos países em que foi instalada, ocasionou a destruição de florestas, diminuição da biodiversidade genética, erosão do solo e poluição dos recursos ambientais, incluindo os utilizados na alimentação, além de reproduzir e aprofundar as igualdades sociais no campo (Andrades e Ganimi, 2007; Balsan, 2006).

Com isso, indústrias químicas que abasteciam a indústria bélica enxergaram no mercado agrícola uma oportunidade de negócios para o pós-guerra e começam a produzir e incentivar o uso de substâncias químicas como os agrotóxicos: herbicidas, fungicidas, inseticidas e fertilizantes químicos; que na produção agrícola serviriam para eliminar fungos, insetos e ervas daninhas (Rosa, 1998).

É necessário ressaltar que, dentro desse caldeirão de inovações tecnológicas da revolução, um dos destaques é a adoção de um maquinário pesado, como: tratores e colheitadeiras, que também se colocavam como meios de garantias de continuidade para a indústria bélica do pós-guerra.          

Possuindo grandes sobras de material de guerra (indústria química e mecânica), direcionaram tais sobras para a agricultura. Encarregaram as fundações Ford e Rockfeller, o banco Mundial, entre outros, para sistematizarem o processo. Estes montaram a rede mundial GCPAI – Grupo Consultivo de Pesquisa Internacional – que é, na realidade, o somatório de centros de pesquisa e treinamento localizados em todo o mundo (Zamberlan; Fronchet, 2001, p. 17).

O problema da fome tornava-se cada vez mais sério em várias partes do mundo, e o governo americano e os grandes capitalistas temiam que se tornasse elemento decisivo nas tensões sociais existentes em muitos países, o que poderia ampliar o número de nações sob o regime comunista, particularmente na Ásia e na América Central, tradicionais zonas de influência norte-americana (Rosa, 1998, p. 19).

A partir da análise de Rosa, é possível inferir que a Revolução Verde, sobre o pretexto de produzir alimentos em quantidade suficiente para erradicar a fome, na verdade se ocupava também em reproduzir o capital, com suas desigualdades, como modo de impedir o avanço do domínio soviético.

Por meio da Revolução Verde, configurou-se um modelo baseado na utilização de agrotóxicos e implantação da monocultura. Estes fatores, aliados, buscavam uma maior rentabilidade da atividade agrícola maximizando sua produtividade a qualquer preço (Zamberlam; Fronchet, 2001, p. 13).

Como consequência, as formas de manejo de solo e produção artesanais ficaram em desuso e passaram a ser consideradas como “antiquadas” pois, na visão do novo modelo, não garantiam alta rentabilidade. Segundo Zamberlam e Fronchet (2001), os impactos ambientais, econômicos e sociais acarretados pela modernização da agricultura baseiam-se no uso intensivo dos pacotes tecnológicos, na mecanização do trabalho, na união entre agricultura e indústria, na seleção das espécies, na monocultura, no latifúndio e no consumismo desmedido, principalmente dos países desenvolvidos.

A Revolução Verde, portanto, além de causar graves impactos ambientais, também trouxe consigo um elemento social de exploração, por se fundamentar em uma competição desigual com produtores locais ou pessoas que vivem da terra em uma lógica artesanal. Como exemplo disso, o Atlas do Agronegócio (Santos e Glass, 2018) demonstra que, no final da década de 1980 e na década de 1990, corporações como a Nestlé e a Kraft diversificaram o controle sobre as suas marcas fazendo aquisições em diversos mercados. Desde o final da década de1990, os investidores começaram a exercer influência nas fusões e aquisições no setor de alimentos e bebidas. As empresas passaram a concentrar em suas principais marcas e indústrias, e a fazer aquisições verticais e horizontais dentro do mesmo subsetor.

Em “Revolução verde – um jeito capitalista de dominar a agricultura” (Zamberlam; Fronchet, 2001, p. 13) os autores ressaltam as reais intenções da grande empresa na modernização da agricultura, que são a maximização do lucro através da monopolização de fatias cada vez maiores do mercado e a aquisição de royalty por intermédio dos pacotes tecnológicos, criando um círculo de dependência para o agricultor que só adquiria os pacotes tecnológicos produzidos pelas transnacionais.

A mecanização também colabora ao acentuar o desemprego no campo conforme a intensificação do processo. Isso acontece porque os maquinários agrícolas desenvolvidos junto aos pacotes tecnológicos são poupadores de mão-de-obra. Rosa (1998) ressalta que para os produtores terem acesso aos pacotes tecnológicos, nos países subdesenvolvidos, foi necessária uma ampliação do crédito por meio de convênios intergovernamentais com o objetivo de financiar a importação de insumos e de maquinário agrícola.

O modelo de revolução agrícola exportado para o mundo capitalista chegou ao Brasil na década de 60, durante a ditadura militar e, por alinhamento ideológico com o capital, foi considerada um dos pilares do “milagre econômico” brasileiro. A partir das leituras que fizemos, conseguimos perceber que a agricultura brasileira passou a adotar o uso de agrotóxicos em sua produção de forma desenfreada, prejudicando nosso solo, natureza e, em especial, as pessoas que consumiam estes produtos.

No nosso blog temos outro artigo que trata dos prejuízos à saúde que o consumo de alimentos contaminados por agrotóxicos podem causar. Fique à vontade para saber mais sobre o tema.

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